quarta-feira, 9 de junho de 2010

BEATRIZ - FIM

Com atraso de um dia, eis a conclusão!


A verdade é que nenhuma mulher me dera tanto trabalho quanto Beatriz. Fiquei três horas esperando à sombra de uma árvore frondosa, ao lado do posto, inquieto, temendo que os olhares desconfiados dos frentistas se transformassem em denúncia à polícia por achar que um marginal planejava assaltá-lo; estava apenas à espera dos comparsas, diriam. A atitude suspeita em que me encontrava, pressuroso, um olho na pista, onde os carros passavam velozes, e o outro nas dependências do posto, como a bisbilhotar se os comparsas — tão efetivos na arte da dissimulação — não haviam chegado sem que até eu percebesse, dava margem a tal engano. Por isso saí dali ao cabo de uma longa espera, o orgulho ferido, remoendo sentenças que classificavam Beatriz entre as mais ínfimas personalidades do mundo da prostituição.


Por sorte encontrei-a na primeira tentativa que fiz no supermercado. Era lá o único lugar em que podia procurá-la. Se quisesse, podia evitar-me facilmente não indo mais lá e eu ficaria sem ter como achá-la. Mas parecia propósito não querer me evitar. Estava só, ainda bem. Um vestido que ia aos joelhos livrava-a da classe das mulheres de péssima reputação a olhos que se prendessem à análise exclusiva da vestimenta. Eu, afeito a suas tretas, ia direto ao olhar para uma leitura da alma. Mordi a língua, irado, gosto de bílis na boca, ao ver suas pupilas brilhando de felicidade. Era um brilho que me ofuscava, que me fazia quase perder a cabeça, e denunciava, sem necessidade de experiência ou dotes sobrenaturais de adivinho, que fora tudo proposital, uma armação. Estampava nos olhos — eu não estava louco — o prazer com o objetivo alcançado. E a raiva com que a abordei só fez calibrar para cima o seu prazer. Seus olhos pareciam dizer: “você voltou, meu cachorrinho! Vem, lambe os meus pés, é uma ordem!”

—Por que fez isso?! — explodi.

Cândida, com a mais pura naturalidade, como se aquilo fosse comum na sua vida, desconversou que era uma mulher casada, que tinha compromissos com o marido, que este sem aviso prévio levou-a a um compromisso social na Ordem dos Advogados e, sem ter como entrar em contato comigo desmarcando, ficou pensando que a minha reação seria justo esta.

Arrematou:

— Desculpa, meu bem — e fez um biquinho.

— E como ficamos?

— Conhece o Clube de Engenharia? — e sem dar tempo para eu abrir a boca: — Pois bem, me espere na rua detrás, pertinho da sorveteria...

— Que dia?... — atropelei-a

— Calma — ela atalhou, fria, com um irritante controle em quase tudo: nos gestos, na fala tranquila, na respiração pausada. Só não tinha domínio sobre os olhos, incapazes de disfarçar o sádico prazer que a deixava em ebulição por dentro.

Seria no dia seguinte, acertou. E no meio da tarde. Depois de dar as ordens, livrou-se de mim com a pressa de um transeunte que afasta a incômoda presença de um pedinte de rua.

Ah! ela me paga, jurei, se tentar novamente me dar o bolo. E voltei para casa remoendo mil ardis para prendê-la em minhas malhas. Eu, um homem experiente, sobejamente conhecedor de todos os truques femininos de sedução e negaça, não iria agora sofrer nas mãos de uma dondoca que parecia indecisa em trair o marido. Estaria ficando velho? Seria já hora de aposentar-me nesse perigoso jogo? Um dos meus maiores orgulhos era justamente o fato de minhas contas matemáticas nunca me traírem: a cada abordagem correspondia um sucesso. Por que agora o fracasso me ameaçava?

Como a maior arma do conquistador é a perseverança fui ao encontro. Parei o carro diante da sorveteria bem antes da hora combinada, desci, pedi um sorvete e esperei. A ruazinha quase não tinha movimento, era ideal para esses encontros: discrição e controle de todos os movimentos. Seria ela também hábil no jogo da sedução?, assaltou-me uma dúvida. Uma amadora não teria tão vasta margem de manobra. E se agora estivesse se rindo de mim, preparando-me um novo bolo?

Na hora aprazada um carro entrou na rua, dobrando a esquina dos fundos do Clube de Engenharia. Chegou lento, vidros fechados, ar-condicionado ligado na tarde quente. Larguei o sorvete para melhor conferir se era Beatriz. Não teria precisado tanto, pois o carro quase parou no meio da rua, o vidro desceu lentamente, deixando à mostra o seu sorriso. Na hora não aferi se era de mofa ou contentamento. Fiz menção de descer a calçada, mas ela arrancou. Pensei que fosse estacionar adiante e paralisei os movimentos esperando sua definição. Inacreditável, viera só zombar de minha cara. Com o meio-fio liberado, a rua sem outro carro que o meu, ela seguia lento adiante. Ia embora, a cadela. Já assim a mencionava na explosão de impropérios que chamou a atenção do sorveteiro.

Mas a sorte conspirava a meu favor. E digo já por quê. Bem adiante ela estacionou o carro, desceu, deu a volta e olhou atrás na lateral direita. Eu observava mudo e paralisado. Mais um de seus truques? Era assim que atraía o interesse de um potencial amante? Eu permaneci estático. Se não era uma mulher complicada, como nunca vira antes, usava estratégias heterodoxas no jogo da sedução que começavam a atrair-me pela vontade de aprender, reciclar e tornar maior minha capacidade sedutora. Logo Beatriz deixou de observar o carro para acenar em meu rumo, chamando-me. Não perdi tempo, paguei o sorvete, entrei no carro e arranquei. Ela estava com o pneu traseiro do carro furado, era isso! Santo prego que o furara. Por isso parou, nada de estratégias mirabolantes. Era já a minha autoestima que murchava para duvidar assim de meus predicados e superestimar suas táticas. O que não obra num conquistador empedernido o primeiro empecilho. Achava que minhas estratégias estivessem ultrapassadas, que a idade não só derrui o corpo como as virtudes do ser humano. Parei as excogitações antes que ela sumisse de minha frente.

— Que azar, o pneu está furado — disse quando me pus a seu lado. — Você troca para mim?

— Entra no meu carro, vamos buscar o borracheiro. Não quero estar suado no motel.

Ao ouvir a palavra motel, ela estacou o corpo; mas sem opção, entrou.

Olhei-a a meu lado, estava linda, desamparada. Não desconfiava o que eu faria. No final da rua tinha uma borracharia e passei por ela como uma flecha. Ela protestou.

— Ali, ali, você passou a borracharia.

— Sei, eu vi.

— O que você está planejando? — virou-se para mim com olhar assustado.

— O que eu disse há pouco: vamos ao motel.

Ela cresceu os olhos nas órbitas, desfigurando a placidez do rosto. Protestou, não podia, disse. E por que não? quis saber. Por que nunca saí com outro homem que não fosse meu marido. Conta outra, sorri sem dar o mínimo crédito. Juro, juro!, e pôs as mãos juntas em súplica.

Eu me deliciava vendo aquela mulher fria, cheia de cálculos e métodos para ludibriar um homem, quase chorar como uma criancinha. Seria também parte do jogo?

— Você faz assim com todos?

Ela fuzilou-me com um olhar de raiva que pareceu verdadeiro.

Desculpei-me.

— Pois bem, se nunca saiu, vai sair hoje. Há primeira vez para tudo. E se gostar, pode repetir — sorri casuisticamente. — A única coisa que não admite repetição é a morte.

Enquanto eu avançava pela rua, aos poucos seus rogos foram perdendo força, permitindo que voz e olhos se ajustassem no mesmo compasso excitado.

Balbuciou uma confissão, as palavras tensas, jogadas para fora como pedras em vidraça:

— Você é maluco — percebi um acento de prazer em sua voz. Ela continuou, após um intervalo em que parecia contabilizar números: — Sabe que você é o décimo-sétimo homem com quem brinco assim?

Pegou-me de surpresa com a revelação. Jura?, perguntei depois de um momento abobalhado. Ela, sacudindo a cabeça afirmativamente como uma criança que confessa uma traquinagem, sorriu.

— Mesmo.

— Poxa, se levou todos para a cama, quando ia afinal comigo, pois hoje está indo pelo acidente com o pneu.

— Você não entendeu — disse afetando modéstia, o que me deixou confuso —, eu só brincava com eles. Você é o primeiro que me leva para a cama. Não viu o meu nervosismo há pouco?

—É realmente de encabular — foi tudo que consegui dizer pois ainda não digerira a informação.


Quando chegamos ao motel, Beatriz se revelou outra mulher, segura e decidida. Esqueceu qualquer recato. Fez um magnífico strip-tease como prato de entrada, vigiando com o olhar o tamanho crescente de minha excitação entre as coxas. Ao perceber que estava no ponto, sem qualquer chamamento meu, jogou longe o extravagante escarpim pink, última lembrança do vestuário, para me cavalgar. Enquanto rebolava para agasalhar minha pica na xoxota orvalhada, sulcava meu peito com unhas ferinas.

Com tanta desenvoltura na cama, achei impossível acreditar que fui o único ungido dos dezessete.

 
Nem Dom Juan nem Casanova

terça-feira, 8 de junho de 2010

VOLTO HOJE

Amigos, ainda hoje posto a conclusão da história de BEATRIZ. É que estive fazendo exames médicos nestes últimos dias e a coisa emperrou. Mas os concluí ontem à noite e estou liberado. Antes tinha um vício, o cigarro; como o ser humano dificilmente livra-se por completo dos vícios, quero voltar logo a este, o que preenche meus dias no Ocaso.


Nem Dom Juan nem Casanova

quinta-feira, 3 de junho de 2010

BEATRIZ - PARTE II



Movido por um sentimento que oscilava entre o despeito e a excitação, pus em prática meu dotes de detetive amador atrás de Beatriz. Onde encontrá-la senão no supermercado? Seria de pouco siso ir ao escritório do marido pedir informação sobre ela. Talvez um homem inexperiente, ou possesso, cometesse tal desatino; eu não. Mesmo depois da volta de minha esposa do congresso médico, fiz questão de retornar às compras. Não quis sequer que me acompanhasse. Ela comemorou minha decisão como uma vitória. Estaria definitivamente me tornando um homem afeito às coisas domésticas, ela inclusa? A resposta foi uma careta que, no estado beatífico em que ela se encontrava, interpretou como um sim. Ainda que eu chorasse, veria nisso um sim.

Nas três primeiras vezes nem rastro de Beatriz. Ficava horas no supermercado, zanzando nos corredores, atento a todas as mulheres que passavam. Depois conto sobre outros romances que surgiram enquanto a procurava. Estava quase desistindo quando na quarta vez ela apareceu. Mas, puta merda!, acompanhada do marido. Não sabia se a companhia dele era usual, pois só a tinha visto uma única vez, e sozinha. Botou em mim os mesmos olhos dissimulados que suplicavam que fosse possuída e passou no corredor apertado se esfregando em meu corpo. Voltou, olhou para trás, enquanto o marido aguardava desligado do mundo, talvez esmiuçando mentalmente seus processos; uma vez mais disfarçou procurar preços na prateleira. Era a rainha da dissimulação, apenas os seus olhos não conseguiam mentir. Se os fechasse, era a mais casta de todas as mulheres. Mas iria puder fisgar seus amantes de olhos fechados? Impossível.

Segui-a por vários corredores. Ela parava, eu também. Quando voltava o rosto para me ver, tinha o mesmo sorriso mordaz nos lábios e o irritante olhar duro e dominador, que parecia gritar uma ordem: “vem meu cachorrinho, vem!” Excitava-se, não resta dúvida, de sentir-se desejada na presença do marido. E ainda mais de sentir-se flertando com outro homem na sua presença sem que ele percebesse. Provável que já estivesse com a xoxota molhadinha, desejando pica.

Depois de muitas esquivas, resolveu permitir a minha abordagem. Disse com voz melosa ao marido:

— Benzinho, vá para o caixa que ainda vou pegar uns xampus que estão faltando.

Ele foi para um lado e ela para outro. Eu atrás dela, empurrando meu carrinho ainda vazio, tamanha era a minha concentração. Lá pelo terceiro corredor, de onde ele não mais podia nos ver, ela cessou os passos elegantes à espera.

Eu soltei os cachorros, ofegante.

— Você é uma sacana...

Antes que eu completasse a frase, elegantemente, pedindo que abaixasse o tom porque estávamos num lugar com muita gente, ela afetou ignorância.

— O que houve, esperei e você não ligou.

—Faz de conta, né?! Você me deu um cartão de seu marido. Queria que ligasse para ele e o chamasse de benzinho? — disse com rispidez e deboche.

Ela pareceu gostar de minha pegada. Derramou um olhar libidinoso, que escorria pelos cantos dos olhos, como o das putas que encenam prazer numa brutal penetração.

— Oh, amor! Desculpa, deve ter sido a pressa. Sabe como é, tanta gente na hora, fiquei nervosa.

Antes que eu apontasse uma solução para o mal entendido, ela antecipou-se propondo uma saída.

— Que tal um encontro na saída da cidade, naquele posto verde e amarelo?

Mas era muito longe, eu disse. Não poderia ser mais perto? A sua negativa de cabeça não deixava opção, ou era aquilo ou nada.

E para apressar-me, ameaçou:

— Responda logo, o meu marido pode voltar pela minha demora.

Combinei dia e horário e vi afastar-se com o mais casto dos andares. Pelas costas era uma irrepreensível dama que só o olhar denunciava as habilidades no jogo da sedução. Voltei para casa com a sensação de uma vitória pirrônica, ou melhor, de ter sido novamente levado no bico.


Nem Dom Juan nem Casanova

terça-feira, 1 de junho de 2010

BEATRIZ - PARTE I



Os olhos de Beatriz me atraíam. Eles desnudavam sua alma, sua personalidade de mulher casada de falso recato que o resto do corpo tentava em vão esconder. Não foi difícil descobrir isso ao conhecê-la no supermercado. Quando olhei para ela, de velho os seus olhos estavam em cima de mim. Ao perceber minha atenção, num movimento rápido, ela desviou-os e disfarçou seu interesse procurando preços de produtos na prateleira.


Abafei um sorriso de contentamento e puxei o carrinho para perto dela. A conversa não demorou.

Deflagrado o diálogo, ela perguntou:

— E sua esposa, não veio?

— Pois é, ela está viajando. Foi a um congresso. A casa está por minha conta.

— Não tem filhos?

Sabia que sondava, direta e rapidamente, mais um candidato a amante. Mulheres casadas preferem os que têm poucos embaraços e mais tempo livre.

—Sim, tenho. Mas já bateram asas, voaram.

—Só os dois em casa então?

—Isso mesmo. E você?

Ela estendeu a mão esquerda, mostrando os dedos longos e finos. Unhas bem cuidadas, pintadas de vermelho forte. Tratadas quase diariamente em manicure, coisa de mulher com muito tempo ocioso. No dedo anular brilhava uma grossa aliança. Não vacilei um só segundo: prendia-a entre a minha, sentindo a maciez da pele bronzeada. Ela não opôs resistência, deixou que a retivesse, como que gostando de ter encontrado um apoio para descansá-la. Fiz leve pressão em sua palma alerta a qualquer alteração nos seus olhos que denunciasse pânico ou desagrado com o contato intempestivo. Nada disso. Apenas apertou-os levemente, o que para mim podia exprimir duas coisas: atenção e análise ao que eu fazia, para ver o tamanho de minha ousadia, ou prazer ao ser tocada assim em lugar público.

Ainda sem largar sua mão, fiz o pedido.

— E o seu telefone, pode me dar?

Ela sorriu.

— Se largar a minha mão, dou-lhe um cartão.

Foi imediatamente obedecida, tendo eu inclinado levemente a cabeça e afastado os braços do corpo num sinal de escusas.

Rindo de minhas mímicas, enquanto olhava em volta com cautela, abriu a bolsa, sacou a outra de mão de dentro dela, vasculhou-a até encontrar o pequeno pedaço de papel — que prendeu entre os dedos indicador e médio —, entregando-me com olhos cravados nos meus. Sem ler, elevei-o preso entre os dedos à lateral da testa numa reverência de despedida. Ela se afastou sem desarmar o sorriso, misturando-se aos muitos clientes.

Dois dias depois, quase havia esquecido Beatriz. Vasculhando papéis na carteira de bolso, dei com o papelzinho amarelo. Era o seu cartão de visitas. Eram tantos os cartões que recebia, tantas as mulheres com quem tinha contato, que uma a mais ou a menos pouca diferença fazia. Ou melhor, obrigava-me a estabelecer uma relação, definindo prioridades. Umas pela beleza, outras pela suspeita de que fossem ardentes à cama, outras ainda pela certeza de que pela primeira vez trairiam o marido. Beatriz não se enquadrava em nenhuma dessas categorias, não sendo portanto caso de urgência. Por isso, o esquecimento de seu cartão entre os muitos que recebia diariamente. A surpresa foi grande quando constatei que o cartão era de seu marido, advogado renomado que eu conhecia das entrevistas na TV e nos jornais.

“Bandida”, expressei, o riso sobrepondo-se à raiva. “Te pego”, asseverei, imediatamente enquadrando-a numa recém-criada categoria, onde ela reinaria absoluta: a das mulheres que tentam me ludibriar.




Nem Dom Juan nem Casanova

segunda-feira, 31 de maio de 2010

MEUS PRIMEIROS TROPEÇOS NO AMOR


Foto: http://4.bp.blogspot.com/_PyeUPpQa4Kc/SWJ60zicJgI/AAAAAAAAAQA/j7I8NAZ70k8/s320/velha+da+janela.jpg


Quase sempre nos pomos a matutar sobre a vida quando a temos corrida por longos anos ou então se as tropelias são tantas em tenra idade que fazem jus a isso. Para mim, a primeira hipótese é a correta. E algumas reminiscências hoje me fazem rir, e creio que também a quem ler esta crônica.

Era costume entre os adolescentes de minha turma, para ganhar confiança e “chegar junto” na gata em uma festa tomar um copo americano da mais pura aguardente. Eu sempre ia às festas na companhia de dois ou três amigos inseparáveis, colegas de turma do colégio. Éramos tão amigos que quando um levava chifre da namorada os outros três sentiam juntos a dor de corno. Andávamos a pé, a cidade pequena colaborava. No grande largo onde ficava o colégio, uma construção secular em forma de U com calçada alta e pátio central, acontecia a maioria das festas. Nas ruas em volta as biroscas eram muitas, onde eu e meus colegas fazíamos fila entre os outros fregueses para “um copo de coragem”. Depois de virar o copo de um só trago e sem intervalo para o fôlego, pedíamos ao bodegueiro vários chicletes de menta para escamotear o bafo. Se resolvia, não sei; mas as meninas nunca reclamavam de nada.

Aos dezesseis anos incompletos, primeiro ano fora de casa, era ainda completamente xucro em matéria de amor. Elaborava então lentamente uma complexa técnica para as instâncias amorosas: simulava beijos de língua na pele das costas da mão que deixavam marcas roxas; ensaiava a abordagem e vários diálogos que não permitiam brechas para uma recusa; enfim, satisfeito, aprovava e repassava amiúde como uma lição a minha própria teoria amorosa. Pobre do Ovídio, se já o conhecesse àquela época, estou convencido que eu desdenharia com soberba de sua “obsoleta” técnica da Arte de Amar.

À revelia do conhecimento do axioma do poeta romano de que o amor obedece a uma técnica, chegara a essa mesma conclusão por conta própria. Faltava pôr meu arcabouço técnico à prova. Não faltavam oportunidades. Durante os festejos juninos no colégio surgiu a maior delas. Encontrei-me com os indefectíveis amigos no grande largo. Cumprimentamo-nos e eu, como chefe presuntivo, perguntei: “Treinaram muito? Hoje aqui tem que dar certo!” Eles mostraram obedientes as costas das mãos. Estavam todas cheias de manchas roxas. “Então vamos lá”, convoquei-os. E fomos à birosca para o trago de sempre.

Não preciso dizer que estávamos mesmo era a fim de agarrar cada qual uma gata. E tinham muitas na festa. Cheguei a sentir arrepios de medo de um fracasso. Com tantas mulheres disponíveis, qual seria a desculpa para um fracasso? Não comentei, mas tenho certeza que era essa a mesma preocupação de meus colegas. Ainda fiz uma última recomendação: “Convidar para dançar é o começo de tudo; depois é grudar qual carrapato e não largar mais”. Com um sorriso nervoso, um trêmulo sinal positivo com o polegar e um tapinha de encorajamento nas costas de cada um deles, partimos para a abordagem.

Não foi difícil convencê-las a dançar. Nem ficar grudado. Mas inexperientes que éramos, o que mais queríamos era que a banda não parasse de tocar para não nos embaraçarmos com as preciosidades que tínhamos nas mãos. Aqui e acolá palavras e frases perdiam-se na confusão dos casais dançando e do som estridente acima de tudo. A comunicação fazia-se em mímicas de risos e olhares furtivos. Estava com um baita medo de outro fracasso. Medo de dançar, dançar e dançar como em outras vezes e depois tchauzinho!...e nada mais. Dessa vez não seria assim.

Quando vi que o sol queria levantar-se no horizonte, forcei a barra. E não é que deu certo? Ela beijou gostoso. Puxa vida! Quase fui ao outro mundo. Tive vontade de amputar a mão para nunca mais beijá-la. Como era áspero um beijo de língua na mão. E como era quente, ardente, molhado e macio um verdadeiro beijo de língua.

A essas alturas sentia-me já o maior conquistador do mundo: “mulheres, prostrai-vos aos meus pés!” Corri o salão para ver como iam se saindo meus amigos. Estavam também eles pelos cantos embeiçados com outras meninas. Duas moravam no centro da cidade e a minha e a de outro colega nos arrabaldes da cidade. Parecia uma desvantagem, mas não era. Íamos os dois levá-las em casa e nos acertos para tanto surgiu a sedutora proposta de, como diz Mário de Andrade em Macunaíma, “brincar” um bocado na cama. A minha garota - lembro o nome dela até hoje, Sheila, esguia, cabelos compridos e uma voz que denunciava mais experiência que todos nós juntos - foi quem fez o convite. Despachamos os dois outros com as namoradas, piscamos olho para eles como quem diz “outro dia vocês têm chance igual” e fomos levá-las a pé. Eram mais de quatro quilômetros na escuridão de ruas sem calçamento, afastando os cachorros madrugadores e cruzando com o povo que seguia para a feira dominical na praça do Mercado. Mas a recompensa final valeria qualquer sacrifício. Estávamos já de camisa aberta, o peito ao vento pegando sereno. A mão da garota insinuando-se pelo meu corpo todo e também a minha em frivolidades pelo seu, sem reserva nem pudor. Na cabeça, um pensamento constante: “É hoje! É hoje!”

A minha garota dizia morar com a avó e assegurava que ela estava viajando. Nada melhor, pensava eu. Depois de muito andar pelo ermo, onde quase não se via mais casa alguma, a palidez do sol já borrando o horizonte, chegamos a uma casinhola. “É aqui”, disse Sheila. Dei-lhe um abraço apertado, mas ela desvencilhou-se de mim. “Vou conferir se não tem ninguém; esperem aqui”, disse. Aproximou-se da casa, bateu repetidas vezes à janela lateral e a folha de madeira pouco depois se abriu. Um rosto encarquilhado assomou no espaço da janela.

Sheila virou-se para nós, disfarçando a certeza de saber que havia gente na casa: “Ela já voltou de viagem...tchau!”, e sumiu com a colega dentro de casa rapidinho depois que a porta se abriu.
Voltamos com cara de otário para a cidade, seguindo a romaria de feirantes que iam à praça do Mercado.
A preocupação agora era outra. O amigo me perguntou: “E o que vamos dizer aos outros dois?” Pensei um instante. “Vamos dizer que rolou legal”. Ele concordou com um sorriso triste: “Combinado”.



Nem Dom Juan nem Casanova

FORA DO AR

Amigos,
o blog esteve dois dias fora do ar, inexplicavelmente. Tive que recorrer ao THE GOOGLE TEAM para o restabelecimento. Foi a segunda vez que isso aconteceu. Basta eu mandar um email através do endereço nemdomjuannemcasanova@gmail.com para a conta e o Blog estarem suspensos. Vou utilizar agora para meus contatos a conta nemdomjuannemcasanova@hotmail.com .
Hoje à tarde tem história nova.
Um grande abraço.

Nem Dom Juan nem Casanova

sábado, 29 de maio de 2010

MINHA PUTA QUERIDA


Foto: http://1.bp.blogspot.com/_WlkNgY_qLQo/S6GolD6BTvI/AAAAAAAAAuI/D86cXNRUNOc/s400/nua+na+janela.jpg



O sexo nos obriga a situações que só o vício explica. Depois que descobri as suas delícias com Maria não quis mais parar. Mas ao desprezá-la para sair com amigos, abandonando-a nua na cama vertendo tesão por todos os poros, ela renhiu luta comigo. Diante de suas recusas tive que me valer do mesmo expediente de outros adolescentes amigos meus: recorrer aos bordéis da cidade, conhecendo a luxúria e a indigência humana em seu mais baixo grau. Ficavam todos à beira do movimentado rio em ruas que acabavam de repente sobre o barranco alto da margem. Outros sumiam em ruas quase intransitáveis, as casas miseráveis escondidas entre touceiras de capim e mato. A fauna humana do local era a mais triste possível. A degradação tornava homens e mulheres seres repugnantes e os nivelava miseravelmente. As crianças, filhas do comércio espúrio do sexo, vagavam dia e noite pelas ruas, nuas, as barrigas dilatadas de verminoses, os cabelos duros de poeira e piolhos. Pediam moedas a quem passava para comprar guloseimas. Os homens que moravam no local ou frequentavam as putas eram barqueiros, estivadores e velhos funcionários do porto decaídos pelo álcool ou a aposentadoria forçada por doença ou acidente.

Neste ambiente encontrei Lucrécia.
A primeira vez que por lá estive foi causa de surpresa para ela. Era noite. Entrei na casa, o soalho de madeira velha e carcomida — a casa equilibrava-se num barranco — rangeu sob meus pés. Aguardei em pé, retraído e sem fazer barulho, aparecer alguém. Por pouco tempo. Da penumbra de um cômodo vizinho surgiu uma figura feminina que melhor teria feito não se revelando na pouca claridade da lâmpada da sala. Era Lucrécia. Uma mulher de aproximadamente trinta anos, mas aparentando mais dez. Os cabelos desgrenhados davam-lhe um ar de louca. Quando sorriu surpresa, mostrou falhas na boca pela ausência de dentes.

— O que deseja? — disse sem acreditar no que via. — Não estranhe, o barulho das tábuas é o alerta da chegada de gente — e completou: — Você não está perdido? O que faz num cabaré vagabundo desses um menino lindo assim e tão bem vestido?

— Eu...eu.

— Já sei. É mais um que quer dar a primeira foda — e deu uma gargalhada que fez surgir uma criança do cômodo de onde ela saíra. Lucrécia deu um grito e a criança voltou apressada.

Constrangido, com uma tremenda vontade de dar meia-volta mas impossibilitado pelo que ela poderia pensar, aguentei firme e balbuciei:

— Não...eu já...

— Ótimo — ela me interrompeu. — Assim eu perco menos tempo, menino. Você quer mesmo trepar com essa velha aqui? — e correu a mão direita diante do próprio corpo, da cabeça à cintura, como se apresentasse um produto.

Meu gesto afirmativo de cabeça foi suficiente para ela.

— Quer uma bebida?

Neguei com a cabeça.

— Quer no quarto ou aqui mesmo?

— Aqui?

— É. Realmente você não é freguês de cabaré. Menino, aqui se trepa na sala com a porta aberta, no quarto com os pirralhos ao lado, na cozinha, no quintal. Onde der vontade ou onde o freguês quiser. É assim.

—Pode ser no quarto.

Ela me pegou pela mão e disse vamos.

Olhei para a porta aberta, ela compreendeu meu movimento de cabeça e me tranquilizou.

— Fica aberta assim mesmo, aqui não tem nada pra roubar. E é bom pois o próximo freguês pode entrar e esperar.

Percebendo o meu constrangimento, com um grito ela escorraçou a criança que estava deitada numa das camas ordinárias do quarto e se mostrara pouco antes para mim.

— Coitadinha, vai sentir minha falta — e justificou: — Ela sempre brinca aqui enquanto eu trepo com os clientes.

Lucrécia abriu a janela do quarto para entrar a aragem fresca vinda do rio. Com rapidez profissional me despiu e cravou em meu corpo olhos gulosos de quem não estava habituada a deliciar-se com carne tenra no almoço.

Deu um grito de êxtase antes de abocanhar a minha pica, dizendo sem pudor.

— Menino, já havia esquecido como é gostosa uma pica novinha assim.

* * *

Lucrecia cobriu-me de regalias a partir do segundo encontro. Ela mesma fez a proposta enquanto me tocava o corpo nu como se procurasse avaliar o incalculável tesouro que tinha às mãos.

— Menino, venha agora só às segundas-feiras.

—Ora, mas por quê? Sou cliente e venho quando quiser.

Ela sorriu mostrando a dentadura falhada. Levantou, amparou as costas na grande janela aberta para o rio. Eu colei nela olhando a água escura.

—Você não entendeu...é que segunda-feira é dia de folga aqui. E vindo nesse dia você não vai mais pagar.

—Agora é grátis, é? — comemorei olhando os barcos fundeados além do trapiche. Borrões escuros na forte neblina que quase só permitia ver as luzes baças de sinalização sobre as cabines.

— É sim, pra você é...Mas só pra você.

— E por quê?

Lucrécia tinha sentimentos como toda mulher, reprimidos e quase esquecidos pela dureza e os desenganos da vida, agora trazidos à tona com a força de quem busca ar para os pulmões após longo mergulho no rio.

Afastou-se da janela, virando o corpo magro que já não me causava repulsa. A luz exterior iluminou-o, realçando o tufo escuro de pelos da buceta. Os olhos estavam cheios de lágrimas, causando-me surpresa e comiseração.

— O que houve, você está chorando?

Limpou os olhos com as mãos. Percebi que a sua angústia era maior que a minha quando ali estivera pela primeira vez.

—É que você me lembra o meu primeiro namorado, só isso.

Aproximei-me dela, mas ela se esquivou ao abraço pedindo que fosse embora e voltasse outro dia. A revelação deixara-a abalada e envergonhada. No íntimo achava impuro o seu sentimento apaixonado e ela, uma puta da beira do rio, indigna de nutrir ilusões por um rapaz de uma das mais tradicionais famílias da cidade.

Um pouco que seja de esperança é capaz de obrar verdadeiro milagre num ser humano. Lucrécia que o diga. Passou a esperar-me às segundas-feiras na porta de sua casa, não raro em passos nervosos na calçada.

Penteada, melhor vestida, unhas pintadas, esforçava-se para obter uma postura corporal que não denunciasse sua profissão. Aos meus olhos tornara-se uma figura caricata, mas eu nada dizia porque via a felicidade estampada no rosto dela. Além disso, embriagava-se com o poder. Sim, de certa forma diante das outras prostitutas ostentava poder, pois elas olhavam-na de suas janelas com despeito e inveja. E na sua lógica aquilo tudo tinha sentido já que poucas podiam ostentar um romance com um jovem da classe alta.

Na cama, valia-se de todos os artifícios da profissão para nunca se repetir nem tornar o nosso encontro tedioso. E após atingir o orgasmo entre gritos vigorosos, relaxava, encolhendo-se na cama como gata que espera carinho. Depois de massageada por minhas mãos ou meus pés, não raro vertia amargura em longas narrativas de sua vida errante. Para me segurar um pouco mais ali, enchia-me de cerveja que buscava na geladeira da cozinha. É tudo grátis, meu bem, dizia enquanto vagava pelada pelo casebre.

Um dia mirou o rio da janela e confessou:

— Já lancei três anjinhos no rio.

— Afogou aí três crianças? — alarmei.

— Não, bobinho — e correu as costas da mão em meu rosto. — Eu joguei aí três crianças que abortei. O rio é bom, é a nossa salvaguarda, não reclama de nada.

* * *

Um dia cheguei todo emproado à casa de Lucrécia, encontrando-a fechada. Bati à vizinha, que me perguntou:
— Você não sabe?

— Não, o quê?

— Um cliente matou-a de faca porque se negou a trepar com ele. Ela disse que ele fedia. Parece que já estava se acostumando com coisa boa — e me lançou um olhar de través. — Ainda tentou escapar, correndo para mergulhar no rio. Mas o homem era pescador, e bom nadador, sangrou-a na água rasa.

— E o corpo? Levaram o corpo pra onde? — perguntei muito abalado.

— Pra roça, é lá que mora a família dela.

E ela que sempre me dizia: “o rio é bom, é a nossa salvaguarda...”

Nem Dom Juan nem Casanova

sexta-feira, 28 de maio de 2010

AS DUAS MENINAS

Foto: http://fatossurreais.files.wordpress.com/2009/07/cdep.jpg

As mulheres são pouco solidárias quando disputam entre si o amor de um homem. Ainda jovem descobri isso em relacionamento simultâneo com duas meninas amigas, vizinhas de condomínio. Eu fazia faculdade e morava sozinho num prédio baixo, três ou quatro andares, próximo ao horto florestal. De tempos em tempos minha mãe vinha do interior visitar-me; e mensalmente recebia a mesada no banco. O horto abrigava um zoológico e quando eu acordava na madrugada, pensando como iniciar e manter uma transa secreta com as duas, ouvia os fortes rugidos dos leões como advertência. Não sei se reclamavam de fome — eram correntes na imprensa as denúncias de maus tratos aos animais do zoo — ou sonhavam com a liberdade caçando nas quentes planícies africanas. O certo é que também me sentia como eles, sem saber fugir à situação de ter que administrar um romance com cada uma.

Eram tão amigas — unha e carne —, é verdade! Qualquer descuido meu poria a perder aquela bela amizade iniciada na infância. Nasceram naquele prédio, ali tomaram os primeiros banhos de sol, deram os primeiros passos no playground sob os olhares protetores das mães. Quando chegou o tempo, iam juntas à escola. A diferença de idade entre elas era mínima: um ano. Davam, quando eu apareci na vida delas, os primeiros e inseguros passos no amor. Eu não podia, um intruso recém-chegado, pôr tudo a perder. Até a adolescência somos românticos e idealistas, daí em diante a ética recém-aprendida sofre as agressões do oportunismo. Deforma-se, moldando com o tempo o ser dissoluto. E sabe por que digo isso? Porque hoje estou livre das veleidades morais que me consumiram horas e dias que podiam ter sido mais bem aproveitados com as duas na cama.

Uma era a Tábata, morena, cabelos longos e lisos, uma Sophia Loren adolescente. Tinha dezenove anos quando a conheci. A outra, branca, magra, cabelos castanhos ondulados, sorriso grande e fácil no rosto anguloso, era a Márcia. Mais nova um ano que a Tábata. Nos finais de semana andavam atrás de mim. À época eu tinha vinte e dois anos. Ia à faculdade e a todas as bibocas da cidade em uma moto preta que elas babavam para dar uma volta. Era eu descer do apartamento para lavar a moto — muitas vezes era só simulacro para atraí-las — e logo as duas apareciam. De início, da parte delas, era apenas papo, coisa de adolescentes. Como começasse a elogiá-las, foram gostando e eu ganhando intimidade. Houve um tempo que nossos olhares se cruzaram e percebi que haviam mudado. Quando sorria e olhava para elas, as duas tinham a fisionomia séria, o olhar profundo, um sorriso que a paixão segurava a custo para não se expandir. Era o sentimento inseguro se manifestando, querendo gritar, mas reprimido pelo receio de um fora. Relutei em corresponder até cavilar como administrar casos simultâneos sem que descobrissem e me deixassem. Foi o período de companhia garantida dos leões do zoológico nas madrugadas.

Encontrei afinal uma fórmula.

Tábata estudava pela manhã o cursinho para o vestibular; havia prestado o exame uma vez e não passara. Márcia concluía o ensino médio à tarde. Durante o dia, no correr da semana, podia encontrar-me separadamente com as duas se quisesse. E quis. O primeiro encontro foi com Tábata à tarde na calçada do prédio, à sombra do maciço de árvores que se alvoroçavam sobre o gradil do horto. Convidei-a para ir ao meu apartamento, segui adiante e alguns minutos depois ela chegou. A primeira vez foi só uma conversa e alguns beijos. Lembrei que Márcia não podia saber de nada e ela concordou sacudindo apressadamente a cabeça. A primeira parte do plano estava concluída. Faltava Márcia. Só consegui atraí-la ao apartamento uma semana depois. Sem qualquer acordo tácito, o final de semana foi uma prova de fogo para nosso plano. Quando encontrei as duas, no sábado, receoso de que Tábata estragasse tudo, ela me surpreendeu dando um show de interpretação. E deixou-me completamente à vontade. Não avançou sobre mim, não me beijou, fez tudo como Márcia — dois beijinhos no rosto, e só.

Levei Márcia ao apartamento dias depois pela manhã enquanto Tábata digladiava no cursinho com fórmulas matemáticas, senos e cossenos. Se Tábata era mais comportada, a amiga branquinha era atirada. Logo de cara sentou no meu colo e pregou em minha língua. Depois de feito o trato, antes de descer, teve a audácia de abraçar-me e gemer em meu ouvido dizendo que se masturbava quando acordava de madrugada pensando em mim. Eu lhe disse uma meia verdade: “eu luto com os leões do zoológico enquanto penso em você, já os ouviu?” Ela disse que sim. E foi embora.

Que duas meninas fantásticas!

A primeira vez de Tábata foi comigo, ficou assustada, mas eu disse: “tudo bem, tudo bem. É assim mesmo”. Já Márcia não era mais virgem, embora mais nova. Confessou-me que um primo, um ano antes, na fazenda do avô embrenhou-se com ela pelos matos durante as férias da família. Ele não morava em nossa cidade, daí a sua angústia para voltar a transar. Enquanto morei no prédio, transei com as duas sem que uma suspeitasse da outra. Pela manhã era Márcia que se deitava em minha cama. Como dizia minha mãe, “é de pequeno que o espinho traz a ponta”. Eh, menina sapeca. Aprendeu tanto a gostar de sexo anal que não abria mão de fazer em nenhuma visita.

Após a minha formatura fui embora da cidade e não sei como se arranjaram a partir daí. Mas, com o potencial que tinha, Márcia deve ter se tornado uma mulher fatal. Tábata era seu oposto, mais carinhosa, gostava de beijar na boca enquanto fazia amor e de palavras doces ditas baixinho no ouvido enquanto fodia. Chorava ao alcançar o orgasmo. Isso era o bastante para eu passar meia hora beijando-a e acariciando todo o seu corpo.

Era como se acalmava das convulsões pós-orgasmo.

Impressionei-me por todo o tempo em que nos relacionamos com o grau de discrição delas. Durante a semana o atendimento era individual, personalizado. Nos finais de semanas, como eram boi e canga, a intimidade — a muito custo de minha parte — cedia lugar ao relacionamento amistoso, às conversas fúteis, aos beijinhos no rosto. Nunca se deixaram trair por uma palavra mal colocada num diálogo, por um gesto denunciador em nossos encontros coletivos.

A tal ponto chegou a nossa cumplicidade que algum tempo depois quando fui trabalhar como locutor noturno de uma rádio, inventamos pseudônimos para as duas. O programa era romântico e ao oferecer uma música para Sophia Loren, Tábata sabia que era para ela. E quando dizia Olívia, numa alusão à semelhança com a Newton-John, parceira de John Travolta nos Embalos de Sábado à Noite, Márcia sabia que falava dela.
Se após eu me mudar de cidade elas revelaram o embuste, não sei. Sei apenas que enquanto durou o nosso relacionamento uma nunca foi confidente nem aconselhou a outra nas mágoas e decepções amorosas.

Nem Dom Juan nem Casanova

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A HISTÓRIA DA GERTRUDES


Foto: http://www.amigosdogalaxie.com.br/carros/Landau%2076%20prata%20-%20traseira.jpg



Como acordei com bom humor vou falar da Gertrudes. Interessante: o sonho é mesmo representação de nosso estado mental diurno. Dormi com a conversa com o Fernando sobre a Gertrudes na cabeça. Não deu outra: apareceu-me em sonho. Como nos velhos tempos: loura dos pés à cabeça. Era inteligente e para ganhar tempo mergulhava de corpo inteiro num tanque com água oxigenada para descolorir pelos e cabelos. No sonho estava como quando a conheci — com a cor de bronze envelhecido. Putz! Eu também estava garotão, livre dos achaques que me deixam quase em prisão domiciliar. Trocamos tantas carícias que comecei a rolar inquieto na cama. Na hora em que ia beijá-la, minha mulher me sacudiu e acordei. Sobressaltada, a coitada pensava que eu estava morrendo. Ainda bem que nem de longe pensou que a pudesse estar traindo.

Gertrudes foi um caso gostoso. Nunca conheci mulher mais safada que aquela. Casada com um diplomata que tudo que tinha de cordato estava no nome da profissão, ainda assim não temia se ferrar se fosse descoberta aprontando. Um amigo meu dizia que a inclinação que ela tinha para a sacanagem estava no sangue. Em certos momentos dava razão para ele, senão veja: ela era uma dondoca; o marido, homem elegante. Firme, estrênuo em tudo; menos, claro, no sexo. Viviam confortavelmente. Ele babava por ela, fazendo-lhe todos os gostos. Comprava para ela roupas em Paris e ovas de esturjão russo em Moscou. O que lhe faltava para traí-lo desbragadamente? Outro amigo dizia sem pejo: falta-lhe pica!

Conheci-a na praia num dia chuvoso. O marido dela estava a serviço em Londres. E ela livre como uma libélula. A impressão que depois tive daquele momento é que se eu não a pegasse, outro pegaria. Como disse, chovia fraco. Pouca gente na praia. Só os que se ausentam por muito tempo, ou os turistas, vão numa segunda-feira chuvosa à praia. Eu estava deitado perto da água quando ela chegou. Andava com jeito afetado de madame, gingado de quem pisa em ovos ou quer evitar titica de cachorro. No fundo era tudo frescura para chamar atenção. Estendeu uma toalha na areia molhada, jogou a sacola e o chapéu para o lado, e desabou no chão como quem deseja mergulhar na areia. O bumbum perfeito tinha nádegas de fazer sombra em meio Rio de Janeiro ao sol das quatro da tarde. Que monumento!

Olhei rápido em volta para ver quantos haviam apreciado aquela aparição, mas eram poucos. Para dizer a verdade, um casal de velhinhos e uma senhora de meia idade dedicando toda atenção a duas crianças branquelas naquele ponto da praia. A primeira certeza que tive foi que aquele molejo todo foi proposital — e para minha apreciação. Assim ela facilitava minha ida à luta. Há mulheres que deixam claro que a sua abordagem não vai ser frustrada. Talvez para que tudo aconteça mais rápido. Algumas dicas de expert: elas cravam olho no olho como se quisessem sugar sua alma; têm maneiras afetadas incomuns em mulheres honestas; são escandalosos para chamar atenção. E por aí vai...

E tudo foi muito rápido mesmo. Quando percebeu que eu estava olhando insistentemente, vacilou várias vezes de propósito, mas de forma a parecer descuido. Mas isso só funcionaria com um homem inexperiente, não comigo. Um exemplo: ao menos duas vezes afastou o biquíni, deixando à mostra a bucetinha loura. Se houvesse ali na praia uma cama, era pular com ela em cima. Não havia cama, mas recolhi a toalha, bati lentamente a areia grudada ao corpo — que molhada resistia a cair — e fui sentar-me a seu lado. Meia hora de conversa foi suficiente para ela deixar claro que eu poderia livrá-la da abstinência sexual forçada.

E fomos para a cama caminhando. Gertrudes morava de frente para o mar. O suntuoso apartamento de cobertura foi minha parada obrigatória durante três anos e meio até ela ir com o marido para uma embaixada na Europa. Eu era informado imediatamente das viagens do marido. Para não levantar suspeita, entrava no prédio pela garagem, guardado no porta-malas do Landau do diplomata. Saía no outro dia cedo, usando o mesmo expediente. Excitavam-na as dissimulações para a transa. Como gostava de foder no apartamento nas viagens do marido, inventava disfarces para eu chegar pela portaria. E eram tantos que os porteiros, ao longo do nosso romance, deviam pensar que o apartamento vivia em obras. Numa de minhas idas lá, disfarçado de encanador, o porteiro me interceptou:

— Depois que atender a madame na cobertura, vá ao 1100. O apartamento está com um vazamento e a moradora pediu-me um encanador com urgência. Vou interfonar avisando, tá?

Nesse dia para não entrar pelo cano, preferi na saída o utilíssimo porta-malas do Landau. Era mais espaçoso.


Nem Dom Juan nem Casanova

terça-feira, 25 de maio de 2010

GERTRUDES


Foto: http://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/01/27/3d/ea/copacabana-beach-view.jpg



A minha janela dá para a rua. Uma visão sobranceira, como se olhasse para fora de cima de uma grua. É por ela que vejo um retalho da cidade, as pessoas surgindo de repente, do nada, invadindo meu campo de visão, caminhando alguns metros na rua, sumindo depois inexplicavelmente. Os carros, velozes, são apenas um borrão de cor atravessando o quadro. Apenas o mar é permanente, espraia-se ameaçando a cada onda invadir meu recanto. Mas para chegar a mim é preciso ter sufocado muita gente abaixo. Um inútil consolo esse de só morrer após o sacrifício de um bando de gente. As pessoas indefesas são as que mais urdem esses trágicos pensamentos. Mas só presto atenção lá fora quando por algum motivo perco a concentração diante do PC. A minha máquina fica, pois, diante da janela. Não é um estorvo essa disposição, é proposital de uns tempos para cá. Como ultimamente perco demasiado a concentração, pu-la ali. Nessas horas em vez de pensamentos aziagos, distraio-me com as cenas cotidianas.

Estava há pouco num desses momentos de tédio, os olhos fora na rua, querendo exceder os contornos do quadro pois nem isso me distrai mais. A tela do PC sem uma palavra no Word, a barrinha vertical pulsando à margem disposta a correr na linha inexistente. Procurava a duras penas arrancar da cabeça uma das minhas muitas histórias de infidelidade para pôr neste blog mas estava difícil. O telefone tocou. Foi a salvação para tanto tédio. Era um amigo meu, o Fernando. Ligava para saber de minha saúde, mas também para me injetar ânimo falando da Gertrudes.

— Que Gertrudes? — perguntei ainda entorpecido pela falta de ânimo e o cansaço da tosse. O médico disse que isso é comum na minha doença.

— Aquela, pô, que você pegou por um tempão. Disse-me que a conheceu na praia, lembra agora?

Silenciei um tempo na linha, pensando. Esse nome não era comum no meu rosário de mulheres. Não seria difícil lembrar. Súbito uma centelha.

— Ah, sim, lembrei. Que tem ela, morreu?

— Não, cara — sorriu o velho camarada do outro lado —, ela está de volta ao Brasil. Morou com o marido brigão muito tempo no exterior.

— Ah, tá! — não consegui imprimir ânimo às palavras.

Ele percebeu à distância e procurou me reanimar.

— Quem sabe você consegue pegá-la de novo. Ânimo, rapaz! Ela ainda é um pedaço de mal caminho, encontrei-a no Shopping.

— Tá bem, vem depois aqui e conta tudo, tá? Vou desligar, tenho que tomar meu remédio — e desliguei quase sem dar tempo para as despedidas.
Como estou sem muito ânimo mesmo depois eu conto sobre a Gertrudes. Ah, a Gertrudes!



Nem Dom Juan nem Casanova